
Há bastante tempo que circula pela blogosfera um mapa de Israel, onde supostamente se demonstra a progressiva ocupação do território da Palestina pelos Judeus. A figura em causa é repetidamente citada em blogues alinhados com a
extrema-esquerda anti-sionista e com o palestinianismo anti-semita, e também em blogues genuinamente simpatizantes da causa palestiniana. De uma forma simples pretende fazer passar a ideia de que Israel está continuamente a ocupar e a usurpar a terra dos palestinianos. Para isso o referido mapa foi dividido em quatro partes (fases), ao longo das quais o
leitor a doutrinar esclarecer pode observar a evolução da terra palestiniana (a verde) e da terra judaica (a branco).
Logo na primeira fase (1946) representa-se como palestiniano todo o território do futuro Estado de Israel e ainda os territórios de Gaza, da Judeia e da Samaria. Os Judeus apenas aparecem em pequenas parcelas de terra. Não é referido que a Palestina era escassamente habitada, e com vastas áreas desocupadas (que os autores do mapa habilmente pintaram de verde). Os ilustres geógrafos também não explicam que em 1946 a zona estava integrada no
Mandato Britânico da Palestina, que abrangia não só a Palestina, como também a Transjordânia:

No território mandatado previa-se o nascimento de três estados: um Judeu (Israel) e dois árabes (Palestina e Jordânia). Para isso foi elaborado pela ONU um Plano de Partilha em 1947, e que que corresponde à segunda fase representada no mapa. Como a partilha nunca chegou a existir, por recusa dos árabes (dizia-se "árabes" e não "palestinianos"), esta "segunda fase" pura e simplesmente não corresponde a nada. Embora se queira fazer passar a ideia que nesta altura já os malvados dos Judeus haviam roubado muitas terras aos inocentes palestinianos. Convém referir que o Plano de Partilha da ONU era apenas um dos vários existentes. Havia outros: o da
Comissão Peel (1937), o
Morrison-Grady (1946), e o da
Agência Judaica (1947).
Na terceira fase do mapa a patranha continua, porque embora as delimitações que apresenta sejam correctas, omite quatro factos relativos às fronteiras de 1948-1967: correspondem ao determinado nos
Armistícios de 1949; são resultado de uma guerra declarada a Israel (1948) - previamente à qual não havia fronteiras definidas (com excepção dos planos de partilha já anteriormente rejeitados pelos árabes); e os territórios da Faixa de Gaza e da Judeia/Samaria não eram palestinianos, mas sim egípcios e jordanos (e onde curiosamente durante 19 anos ninguém se lembrou de fundar um estado "palestiniano").
Por fim, também na fase quatro há uma deturpação da realidade: primeiro porque a Faixa de Gaza está totalmente desocupada; segundo porque a ocupação existente nos territórios da Judeia e da Samaria resultou de um acto de legitima defesa por parte do Estado de Israel e ocorreu em situação de guerra (1967); terceiro porque essas zonas ainda não têm nem um estatuto definitivo, nem fronteiras acordadas; e quarto porque os territórios pintados a verde, e onde vivem 90% dos palestinianos, estão em situação provisória e resultam dos acordos de Oslo (1993) e do acordo israelo-palestiniano (1995). O que o mapa faz é transformar uma situação de transição numa solução definitiva, tipo "arquipélago", para fazer passar a ideia que os palestinianos estão enclausurados dentro de ilhas. Ora essas "ilhas" nada mais são do que o resultado de acordos, ainda que provisórios, entre as duas partes e que os palestinianos insistem em não prosseguir, manifesta que é a sua recusa em voltar à mesa das negociações.