terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Consoada Semita


Enquanto criança, a noite da consoada e todas as tradições natalícias sempre me pareceram uma punição, um severo castigo. 
Na época, não me perguntava outro porquê além do porquê de ter que estar ali. Sem resposta, sem outra reação que não uma interna guerra de nervos, limitava-me a aguçar a repulsa por tudo o que fosse Cristão. Se me pedissem explicações para o meu mutismo, no máximo, conseguia argumentar contra a agonia que me causava a ideia de me converterem ao que quer que seja.
Mas estava ainda longe de saber - de sequer levantar suspeitas - de que esta história era longa e que tinha ido longe demais, que tinha atravessado uma sequência de séculos e até já teria uma barba branca.
Uma barba branca e que não era a do tal Pai Natal, esse palhaço pançudo de quem, ao contrário das outras crianças, nunca cobicei o colo, por me parecer um perverso, um puro pederasta que me inspirava asco. Já Jesus dava-me a ideia que estava ali a mais, como alguém que teve muita sorte por ter estado no lugar certo, na hora certa. D-us - na altura, Deus - convoca-me um certo temor, a que, por mais que gostasse de lhe desobedecer, não me era alheio o desconforto.
Com o passar dos anos, lá dei o salto do instintivo e impulsivo espírito anti-Natalício para algo mais ideológico, tendo como alvo o Catolicismo e as Catequeses da treta. Apoiado por nenhuma crença, só pela convicção adolescente de que o consumismo e o capitalismo eram dois males da mesma moeda e o comunismo é que era.
Foi, só que por pouco tempo. Bastou-me conhecer um par de camaradas para perceber que o comunismo é um presépio faz-de-conta em que não há palha que chegue para tanto burro. Passou-se-me à história. Ficou-me o fascínio pela Perestroika, pela mãe Rússia, pela Polónia, pelas Chequeuroslováquia e pelas Prússias de papel que pereceram e, por obra e graça do sopro santo, me permaneceram.
Mas essa é outra história. Essa é a história. Em vez de pinheiros mansos armados em pinheiros bravos e suas porcarias luminosas, esta é a história de árvores altas e árvores de saltos altos. Da alvorada de uma tão nova quanto anciã alma. De uma genealogia de sangue que, tenho descoberto, teve gerações que, perante a crescente globalização cristã, sobreviveram caladas. 
Não preciso, nem quero que me tragam certezas, nem verdades assentes em ciências, para que à mesa desta consoada só me sente eu e a minha renovada velha alma. O grão ainda por cá continua. O bacalhau, não. Foi substituído pelo salmão.  

1 comentário:

I. B. disse...

Caganda post! Deixem-me desejar-vos continuação de Feliz Natal! Que Deus vos proteja e abençoe sempre.

Abraço do

Israel Bloom