sábado, 15 de outubro de 2011

10 a 15% menos inteligente

O Governo de Passos Coelho já fez o estrago: reduziu o nível de vida de milhares de funcionários públicos. Esperava-se que defendesse a medida com base no estado de bancarrota em que encontrou o país e que tivesse uma palavra de conforto para com os trabalhadores do Estado que vão ser sacrificados. Era o mínimo que se lhe exigia. Mas em vez disso resolveu resvalar para a demagogia e embarcar  no populismo mais indecoroso que pode haver, justificando os cortes com o facto de os salários no estado serem 10 a 15% superiores aos do privado. Pelos vistos para Passos Coelho um grupo de pessoas em que metade tem formação superior e uma parte substancial tem o ensino secundário, ganhar em média mais 15% que o desqualificado sector privado é um exagero e motivo para se cortar. Confirmam-se assim as supeitas de que o primeiro-ministro é adepto  da  velha táctica lurdesrodriguista de atiçar a inveja da populaça contra o grupo que pretende atingir.
Perante isto só ficam por saber duas coisas: que desculpa Passos Coelho arranjará da próxima vez que tiver de cortar nos funcionários públicos - não pode voltar usar a mesma porque agora ficam a ganhar o mesmo que os do privado - e se os votos do sector privado serão suficientes para o reeleger. É que não há nada que irrite mais as pessoas do que tirarem-lhes uma coisa com o argumento de que eram umas privilegiadas, virando ao mesmo tempo o resto da população contra elas. Esta estratégia demonstra pouca sensibilidade para com os atingidos e pouca inteligência politica. Ainda para mais com o exemplo do primeiro-ministro anterior que se desgraçou, muito por causa de técnicas deste género.

16 comentários:

Anónimo disse...

Venho a este blogue porque sou amigo de Israel e sigo os poucos blogues que os apoiam, nada mais.
Quanto ao resto do conteúdo, estou quase nos antípodas. Por isso, este seu post, não fosse trágica a situação, seria hilariante.

Dylan disse...

Se o PM queria cortar nos subsídios cortava em toda a gente e não só nos funcionários públicos. A minha sincera solidariedade para com estes.

Cidadão Comum disse...

Os funcionários públicos de facto vivem numa realidade à parte. O facto de ganharem mais e de terem mais regalias é algo que toda a gente no privado sabe infelizmente muito bem, mas naturalmente não dizem nada aos seus amigos do público. É uma vergonha! Os funcionários públicos são mais qualificados? Hehe, conheço muita gente com formação superior a vários níveis que não ganha mais do que 850 a 1000 euros / mês e com muito menos regalias do que trabalhando para o estado.

Não percebem que o problema é que o privado não aguenta o "peso" do público?

Trabalhar para o estado tem de deixar de ser bom, só nessa altura Portugal conseguirá equilibrar a balança das suas contas. Sabem porque é que apenas o funcionários públicos se ouvem? É simples: porque os do privado não tem condições para se manifestar, justificar faltas, ou para deslocações… é impressionante como os funcionários públicos são sempre as vitimas. Procurem saber a realidade do privado primeiro, não apenas de Lisboa, mas do resto do país (também é Portugal), na região centro, norte e sul, interior e litoral, não fazem ideia, porque as pessoas nem sequer se podem queixar… a quem? Ao funcionário público que está sempre com queixas e tem sempre razão? Nesta fase não se está a colocar o público contra o privado, esse cenário sempre foi assim, mas infelizmente todos temos funcionários públicos na família e portanto há que manter esses comentários por baixo da mesa. É hipócrita e estúpido, mas é a realidade. A maior parte das pessoas sabem que o problema do pais é ter funcionários públicos com ordenados altos (sim ganhar mais de 1200€ é ganhar bem) tendo em conta a nossa realidade e capacidade e não se comparem com a Europa onde estamos inseridos, porque as realidades são completamente diferentes, não perceber isso é que nos colocou nesta situação económica (por parte dos bancos, das famílias, e do cidadão comum). Reformas de mais de 1500€ são uma afronta ao cidadão comum. Descontaram muito enquanto trabalhavam foi? Então também podiam poupar mais porque ganhavam bem! Militares aos montes com reformas de mais de 2500€ / 4000€ isso só seria possível num pais rico que não sabe o que fazer ao dinheiro! Ganhem juizo, olhem para a realidade, o abuso tem de terminar, está na altura, é o momento! Sei que ninguém nas condições que referi concorda, tem sempre um ou dois argumentos, mas no fundo sabem que é verdade e são infelizmente também responsáveis por manter as coisas assim o mais possível, até porque têm muito mais condições de "aparecer" e fazer valer os seus "direitos".

Como acham que o cidadão comum vê uma pessoa a queixar-se que vai fazer greve porque quer um aumento e ganha apenas 1500€ a conduzir um autocarro ou metro? Existem pelo menos 10000 pessoas que não se importavam de fazer o mesmo trabalho (até mesmo apenas ter trabalho) por metade do ordenado, ou considerar 1000€ como um bom ordenado tendo em conta as funções. Existe muita gente que trabalha muito, com formação superior e que ganha o ordenado mínimo porque não tem alternativa, existem famílias que vivem com dois ou até um ordenado mínimo, mas o que vêm nas noticias são apenas alguns exemplos, a realidade são muitos milhares de familias nessa situação.

Está na altura de acordarem para a realidade. A maior parte do pais odeia os funcionários públicos exactamente por aquilo que referi, porque toda a gente sabe, mas são sempre os privilegiados a queixarem-se e a pensar que são uns desgraçadinhos, são os funcionários públicos em número, em ordenados, reformas e previlégios que nos estão a colocar a corda ao pescoço à anos. O problema é que quem faz leis, quem olha para o problema e tem nas mãos o poder de o resolver são exactamente funcionários públicos.

David Levy disse...

@ Cidadão Comum

Tenho sempre muita resistência a discutir este assunto com pessoas que não sei o que fazem, nem quanto ganham. Não é muito justo, porque de mim sabem o que faço e quanto ganho. Mas mesmo assim atrevo-me a tecer algumas considerações:

1.º Julgo que o sr não percebeu bem o espírito do meu post: eu critico o estado de júbilo de muita gente com o empobrecimento brutal de outros. Acho isso execrável. Uma coisa é a necessidade imperiosa de fazer o corte salarial, outra é aproveitar isso para mais uma vez atiçar a população contra os funcionários públicos, e para os desconsiderar na sua totalidade;

2.º Você pode conhecer muita gente qualificada que está na caixa do supermercado, mas a verdade é tão simples quanto esta: a maioria dos licenciados em Portugal trabalha para o Estado. E é esse o motivo pelo qual os salários no Estado são superiores ao privado. E mesmo no sector privado quanto maior a qualificação maior o vencimento. De uma forma geral é assim, e é no domínio das generalizações que estamos.

3.º Não considero que uma pessoa que ganhem 1200 euros ganhe bem. Depende do que fizer. Se for um médico , e no Estado há muitos que ganham isso, é mal pago.

4.º O seu argumento de que há gente disposta a fazer o mesmo por metede do salário tem de ser válido também para o sector privado. Por isso pergunto-lhe se está disposto a ceder o seu lugar a alguém que queira trabalhar por 50% do que o sr ganha, ou em alternativa a ter uma redução de 50% do seu vencimento. Se me disser que sim, dou mão à palmatória.

5.º No Estado também há licenciados a ganhar 500 euros. E não são tão poucos quanto julga. Fazem trabalho de secretaria. Não vejo grande diferença entre o que aufere um administrativo no Público de um administrativo no privado.

6.º E mesmo que haja diferença, todo esse seu texto deixa de fazer sentido a partir de hoje. Com o corte de 15% nos salários do sector público, segundo as palavras do primeiro-ministro a equidade está reposta. E não vale a pena desenterrar a conversa de que os funcionários públicos não são despedidos, porque já nem isso é verdade. Quase todos passaram de efectivos a contratados.

7.º Não tenho a certeza se a maior parte do país odeia os funcionários públicos. Sei que há um claque que os odeia e também sei que de cada vez que há cortes essa claque rejubila. Mas até não vi um único corte feito aos funcionários públicos beneficiar em 1 cêntimo a vida e os vencimentos dos trabalhadores do sector privado.

prof ramiro marques disse...

David
Os cortes e supressão dos subsídios de natal e férias são inevitáveis. E creio que até 2015, os cortes serão na ordem dos 50%, tanto quanto a desvalorização da moeda somada à inflação se estivéssemos no escudo. O que é criticável são as justificações do troca-tintas em que se rapidamente se transformou Pedro P. Coelho. Custa-me também ver a proteção que o troca-tintas está a dar aos ex-governantes socratinos que faliram o país. Por que será? Ou será que a Fomintinvest, holding de que PPC fez parte, também lucrou e lucra com o negócio ruinoso das renováveis?

Anónimo disse...

Post bem escrito e resposta altamente argumentada. As pessoas do setor privado muito antes de estarem contra dos do público deveriam proteger o seu telhado, poruque sou do tempo em que muitos coleguinhas que não queriam ir trabalhar para longe, arranjavam forma de trabalhar em instituições privadas de educação e passados uns anos, concorriam ao público já com tempo de serviço suficiente para arrebaterem os lugares aos seus colegas do público, uma vez que estes não obtiveram colocação, ou se a tiveram não foi suficiente para aquirirem um lugar. Portanto, esqueçam e dexixem de azer-se de vitimas, porque o que se trata é de comparar casos iguais... o resto é conversa fiada!

Anónimo disse...

Senhor David Levy, permita-me um reparo a algo que diz e que não é completamente correcto: PPC disse, respondendo a um jornalista, que o corte de SF e SN de 2012 e 2013, que corresponde a cerca de 15% do vencimento dos FP, é necessário como medida de corte nas despesas do Estado. Medida equivalente no sector privado não reduziria o deficit do Estado e diminuiria a receita, mas que como medida de equidade seria permitido o aumento da carga horária no sector privado, correspondente a 15% do vencimento (0,5 h por dia representa 2 meses de trabalho por ano, o mesmo que o SF e SN)
Ninguém rejubila com a redução das condições remuneratórias da FP, ( todos temos um ou mais na família)mas para uma sociedade que não tem por onde pagar, ter os FP a ganhar proporcionalmente mais e com uma carga horária muito inferior, não acha que cria na sociedade um sentimento de servidão de uns em relação a outros?
Já agora, esta medida tenta evitar despedimentos na FP. Eu acho um erro, já que muito do esforço da função pública é auto-justificar o seu "quintal" criando entraves aos cidadãos e às empresas. Se posso concretizar? Não, porque por muito que tudo pareça perdido, tudo pode ainda piorar. Há sectores da FP com mais poder que qualquer governo.

David Levy disse...

@ Ramiro,

Partilho a tua opinião, de que provavelmente estes cortes são inevitáveis. Portugal está falido e a viver de dinheiro emprestado e não é possível manter o mesmo nível de vida num país assim. Isso dou de barato. O que irrita é precisamente o trocatintismo de Passos Coelho e júbilo da claque anti-função pública. Hás-de convir que não é fácil perder 20% do rendimento de um dia para o outro e ainda ter de ler e ouvir muita gente a dizer que é bem feito, porque somos uns preguiçosos e não trabalhamos etc. E pior ainda é ver o primeiro-ministro a alimentar isso com tiradas populistas e demagógicas.

Anónimo disse...

Estas comparações entre público e privado são uma falácia. Para igual nível de qualificação e experiência, onde é que os funcionários públicos ganham mais que os privados? Os exemplos devem contar-se pelos dedos! E quais são esses tais privilégios que os funcionários públicos usufruem? Gostava muito que me explicassem.
Para terminar os vírus da mentira e do embuste socretinos já estão a contaminar este governo! E em apenas 4 meses!
F.G.

Anónimo disse...

Mais uma achega na questão do público e do privado. Tirando as empresas públicas, estamos a comparar coisas não comparáveis. Onde que é que os privados têm tribunais, polícia, forças armadas e onde é que o estado tem supermercados, fábricas de sapatos, por exemplo? Estamos a comparar o quê?
Por exemplo no sector da saúde, será que os médicos que trabalham no sector privado ganham menos que os do público?
F.G.

Daniel Santos disse...

apoiado!

Fean disse...

Caro David Levy,

Não se trata de odiar os FP, ou sequer ficar contente por ver decrescer os seus rendimentos.

Trata-se sim de ver que finalmente se começa a perceber que a situação é insustentável. Não é possível ao privado continuar a sustentar uma FP cheia de regalias. O privado está a morrer sufocado em impostos e em precariedade de emprego. Os vencimentos muito mais altos na FP e a sua segurança no trabalho, são mantidos à custa dos mesmos impostos que asfixiam a economia e a população.

Finalmente as coisas começam a mudar. Mas, infelizmente foi preciso ficar muito perto do precipício para isso.

A reforma da FP é essencial mas não chega. É necessário criminalizar o despesismo. Se formos ao madespesapublica.blogspot.com verificamos com que leviandade os dirigentes políticos esbanjam o dinheiro dos impostos. Quanto foi necessário cobrar em IVA de produtos alimentares para pagar tamanho desperdício?

É necessário privatizar as EP, acabar com os subsídios a empresas e Fundações, enfim um sem número de espinhos que temos cravados há dezenas de anos.

Enfim. Custa-me ver alguém inteligente como o Levy a querer ver uma situação inexistente de privados contra FP, apenas por maldade.

Fean disse...

@cidadão comum

Gostei bastante do seu post.

David Levy disse...

@ Fean

Você fala como se os funcionários públicos não pagassem impostos e não prestassem serviços.

Não se ponha a adivinhar os meus estados de maldade, de bondade ou até de inteligência. Apenas fiz referencia a isto porque foi o primeiro-ministro que começou a tentar lançar as pessoas contra a FP ao referir que teve de cortar nos funcionários do Estado porque eles alegadamente ganham mais. Em vez de ter uma palavra de simpatia para com os funcionários que acabara de empobrecer 20%, o primeiro-ministro teve o desplante de vir com a conversa do privado x público. Foi contra isso que me insurgi. Não estava a espera dessa atitude.

No OE de 2012 estão previstos 19 mil milhões para salários, numa despesa total de 80 mil milhões. Nem chega a 25%. Quem diz que é o funcionalismo que suga os recursos do país, deve andar distraído. 19 mil milhões num PIB de 170 mil milhões (11,1%). 650 mil funcionários em 5500 mil trabalhadores (11,8%).

David Levy disse...

@ Anonimo

O que diz está correcto: um corte nos sector privado apenas ia aumentar a receita do Estado e não cortava a despesa. Eu dou isso de barato. Isso e o facto de os cortes provavelmente serem inevitáveis. Isso é uma coisa, outra é ver milhares de pessoas empobrecerem 20% de um dia para o outro, e ainda terem de ouvir o primeiro-ministro a mentir e ver dezenas de pessoas a malhar no funcionalismo. Foi isso mesmo que aconteceu: mal a medida foi anunciada e imediatamente as caixas de comentários do jornais ficaram cheias de vaias e de apupos contra os FP.

Não sou dos que defendem cortes no sector privado, pelo simples motivo que o Estado não deve interferir no que as empresas pagam ou não aos funcionários.

Fean disse...

Levy,
A minha última frase foi escrita de modo ambíguo e interpretou da forma errada.

Não quis dizer que o Levy estava a ser maldoso. O que quis dizer é que o Levy estava a ver uma situação de privados contra FP. E que o Levy estava a concluir que a motivação - desses privados - para esse sentimento era a maldade.