terça-feira, 13 de outubro de 2009

Livni ao ataque

Na abertura da sessão de Inverno da Knesset, a líder da Oposição, Tzipi Livni, proferiu um discurso onde desferiu fortes criticas ao governo de Benjamin Netanyahu.
Livni acusou o primeiro-ministro de ter apenas dois objectivos: sobreviver no Governo e não fazer nada. Acrescentando depois que o processo de paz está num impasse porque o Executivo está deliberadamente a protelar as decisões que têm de ser tomadas, e porque o primeiro-ministro tem humilhado os palestinianos e atacado o maior aliado de Israel, os Estados Unidos, isolando com isso o país na cena internacional.
A líder do Kadima acusou também Netanyahu de anti-sionismo e de cobardia política, por o primeiro-ministro não avançar claramente para uma solução de 2 estados, desvirtuando assim a natureza judaica do Estado de Israel.
Os histéricos deputados do Likud reagiram de forma violenta, tendo interrompido várias vezes o discurso, quer com protestos verbais, quer com ruído nas bancadas.

13 comentários:

Bruno Martins disse...

O argumento do anti-sionismo é extremamente válido. Não falta em Israel quem esteja muito mais preocupado com judeus fora de Israel do que com aqueles que habitam em Israel - isto porque, sem dois estados, o objectivo dos sionistas originais está irremediavelmente posto em causa e, dentro de poucas décadas, será de novo uma utopia.

Bruno Martins

Cirrus disse...

Levy, sei que apoias esta senhora e também aprecio a forma de estar da mesma. Não sei, na actualidade, se todas estas críticas têm fundamento, mas que preferia vê-la a ela com PM de Israel, liderando o processo de paz (não tenho dúvidas de que conseguiria bons frutos), não tenho dúvidas!

A minha questão é, e estando tu ligado ao lado da fronteira contrário ao que eu estou ligado, tens mais conhecimento que eu, para quando Livni primeiro-ministro de Israel?

Dylan disse...

http://aboutportugal-dylan.blogspot.com/2009/10/museu-luso-hebraico-tomar.html

Levy disse...

@ Bruno

É como diz. A demografia neste caso é fatal.

@ Cirrus

Não lhe sei responder. Mas julgo que pode não ser fácil Livni ser PM. O Partido Likud do actual 1º ministro tem como estratégia a cisão do Kadima, e dentro do Kadima, não falta quem queira ocupar o lugar de Livni. Shaul Mofaz por exemplo...


@ Dylan

Não sabia que tinha outro blogue. Pensei que se referia ao post sobre a república e a monarquia. Agora já percebi. Em breve farei a divulgação por aqui. Obrigado.

Duarte disse...

«É como diz. A demografia neste caso é fatal.»


É fatal apenas enquanto as duas partes deste confilito se mantiverem agarradas a uma religião que exarceba a violência, a segregação e a ignorância e não reconhecerem as suas origens comuns israelitas, bem como as enormes vantagens de viverem em paz e união num só estado israelita. Caso contrário, passa a ser uma vantagem.

Levy disse...

@ Duarte

Não me parece que ambas as partes estejam agarradas à religião. No início do sec XX quando começou a surgir o problema, o sionismo era claramente laico, não tendo o conflito nessa altura uma natureza religiosa.
Actualmente já não é bem assim, mas não é exclusivamente religioso. É cultural e étnico. Porque é um conflito entre dois povos e não um.

Duarte disse...

«Não me parece que ambas as partes estejam agarradas à religião»


A mim parece óbvio que este confilito deve-se em grande parte a factores de ordem religiosa. Alguns deles notam-se facilmente. Outros já não se detectam com tanta facilidade. Têm um efeito indirecto e como tal requerem um estudo mais exaustivo.

«No início do sec XX quando começou a surgir o problema, o sionismo era claramente laico, não tendo o conflito nessa altura uma natureza religiosa»


Sionismo laico é aquilo que eu defendo. É a visão de um Estado Israelita, de natureza republicana, secular, humanista, racionalista e social-democrata. Um Estado onde todos as pessoas de raíz judaica/israelita possam viver em paz e segurança e preservar a sua cultura. A religião é único elemento que a meu ver merece ser exluído (embora não de forma forçada, como o fizeram os comunistas), uma vez que se baseia substancialmente em crenças mitológicas e ensinamentos que conduzem à ignorância, ódio, segregação e violência.

Já o sionismo em Israel tem ainda bem vincada uma influência religiosa, o que em meu ver é altamente prejudicial para o bem-estar e progresso dos israelitas e dos palestinianos.

«Porque é um conflito entre dois povos e não um.»


É precisamente essa a grande divergência entre nós. Se discordamos nesta questão, então é lógico que estaremos também em desacordo em relação à ideia da construção de um Eretz Israel que inclua os palestinianos como israelitas mizrahi. É já hoje sabido que os palestinianos são descendentes directos dos judeus/israelitas que permanceram em Israel depois da guerra com os romanos, e cuja prole viria mais tarde a converter-se ao Islão, i.e., durante os períodos de ocupação árabe e otomana. Mas lá porque deixaram a antiga fé, não significa que deixassem de ser israelitas, tal como os cristãos-novos em Portugal, Espanha e América do Sul. Em termos culturais, apenas divergem dos judeus mizrahi por seguirem a mesma religião e não saberem hebraico. Ora, eu prefiro que não sigam nenhuma religião. Apenas desejo que passem a reconhecer as suas raízes culturais israelitas, aprendam a língua Hebraica e adoptem uma cultura mais humanista e democrática para se poderem integrar em Israel. Acho que isso já seria um grande passo para diminuir as tensões entre as duas partes deste confilito. Mas isto implica uma reforma radical na educação e mentalidade das duas facções.

Agora é óbvio que se não houver esta mudança,no sentido da convergência cultural, o meu plano perde toda a viabilidade. A chave está na educação e conhecimento.

provocação disse...

Não sei se realmente o sionismo foi alguma vez claramente laico. Desde o seu início que havia algo a unir as diferentes correntes de pensamento, de cultura e nacões que era a religião... o conflito não tinha uma natureza religiosa mas no seu cerne ela existia.
Na minha humilde opinião é quase impossível disassociar país de religião neste caso. Existem é vontades e visões diferentes de fazer as coisas embora ache que o equilíbrio está na força nacional que uns fazem e na liberação de outros, sem ambos não havia lugar às ideias embora também prefira os métodos do Kadima, por a minha formação pessoal ser moderadora, mas por outro lado reconheço que os velhos do Restelo têm o seu lugar. Ainda é cedo, ainda vai sendo muito cedo para as ideias estarem arrumadas.

Levy disse...

@ Duarte

Toda a sua linha argumentativa se baseia num desejo de banir a religião, seja pela força, ou por outro motivo.
Pessoalmente não tenho nenhuma simpatia pelo sionismo messiânico, (apesar de saber que muitos religiosos são anti-sionistas), tenho pelo político, e vejo o Estado de Israel como um estado judaico, do Povo Judeu. Povo e não religião, embora aceita a existência da religião. Não considero os palestinianos como pertencentes ao Povo Judeu, mesmo que deles sejam descendentes. Afastaram-se, ponto final.
O resto não vale a pena acrescentar, porque o Duarte retratou bem as nossas diferenças de opinião.

Levy disse...

@ provocação

as ideias podem ser arrumadas e depois desarrumadas. A minha opinião sobre este assunto já foi ligeiramente mais próxima da do Duarte, do que aquela que é hoje. Desde a década de 90, que eu segui o eleitorado israelita: inclinei-me mais para a direita.

Duarte disse...

«Toda a sua linha argumentativa se baseia num desejo de banir a religião, seja pela força, ou por outro motivo.»

Se ler com atenção aquilo que escrevi perceberá que a última coisa que pretendo é acabar com a religião por via da força. E não confunda métodos com motivos.


«Não considero os palestinianos como pertencentes ao Povo Judeu, mesmo que deles sejam descendentes. Afastaram-se, ponto final.»

Afastaram-se da religião e cultura judaica porque foram forçados a isso, tal como muitos judeus/israelitas em Portugal, Espanha e América do Sul. Mas não deixaram de ser judeus/israelitas. O Levy está a fazer uma distinção com base em critérios religiosos. Afirmar que os palestinianos não são judeus/israelitas é o equivalente a dizer que um japonês que abandone o xintoísmo (religião nativa do Japão) para se converter ao Judaísmo, deixa de ser japonês.

«Desde a década de 90, que eu segui o eleitorado israelita: inclinei-me mais para a direita.»


A questão não se pode colocar nesses termos: Direita vs Esquerda (coisa que aliás cada vez faz menos sentido para mim). Repare, que a maioria dos grupos da chamada "extrema-direita" em Israel defendem, tal como eu, a expansão do seu território, enquanto que os grupos de "esquerda" defendem a solução de 2-Estados. Como tal, a julgar pelos seus critérios, eu diria que neste plano o Levy até se inclinou para a esquerda.

Todavia, a minha visão do Sionismo inclui a integração dos palestinianos em Israel por via de um processo pacífico de convergência cultural, o qual implicaria um corte com a religião (tanto da parte daqueles que seguem a Torah, como dos que seguem o Quran) em prol da emergência de uma doctrina racionalista e humanista e das vantagens que lhe são inerentes. Este processo estaria obviamente dependente de uma mudança na educação das pessoas. As vantagens da sua concretização seriam enormes para ambas as facções! Acho que só por isso vale a pena considerar a minha visão.

Levy disse...

@ Duarte

"Se ler com atenção aquilo que escrevi perceberá que a última coisa que pretendo é acabar com a religião por via da força."

Tem razão, escrevi mal. Retiro a palavra força.


"O Levy está a fazer uma distinção com base em critérios religiosos."

Não, não estou. Você é que parece que está. A distinção é linguística, cultural, identitária, e também religiosa.
Afastaram-se. Podem ter sido forçados ou não, isso é irrelevante. Afastar quer dizer isso mesmo. Deixaram.

"Repare, que a maioria dos grupos da chamada "extrema-direita" em Israel defendem, tal como eu, a expansão do seu território, enquanto que os grupos de "esquerda" defendem a solução de 2-Estados."

Desculpe, mas isto é virar ao conversa ao contrário:

- Ao contrário de si, os que defendem a expansão, não querem os palestinianos integrados;

- Pelos dois estados:
Meretz (esquerda);
Haavoda (centro esquerda);
Kadima (centrista);
Likud (centro direita);
Ysrael Beitenu (direita).

- Contra os dois estados:
União Nacional (direita);
Casa Judaica (direita religiosa).

- Não sionistas:
Shas (direita religiosa);
Judaismo Unido da Tora (direita religiosa).

Eu percebo as suas intenções, mas elas apenas pretendem substituir a religião, a cultura e a identidade dos hebreus por outras doutrinas, como o racionalismo e o humanismo. Essas visões t~em obviamente o seu espaço em Israel, mas não podem nem apagar, nem substituir o resto.

Duarte disse...

«A distinção é linguística, cultural, identitária, e também religiosa.»

Bem. Estou a ver que terei de exibir aqui alguns videos sobre os judeus mizrahi, para perceber que as diferenças não são assim tão grandes quanto julga, a não ser talvez em comparação com judeus ashkenazi.

É que se comparar um judeuz mizrahi com um palestiniano (ou um persa) e retirar a ambos a componente religiosa, do ponto de vista cultural, notar-se-á que são quase idênticos, excepto pelo facto de o primeiro, para além da língua Árabe (ou Farsi), dominar também a língua Hebraica.


«Afastaram-se. Podem ter sido forçados ou não, isso é irrelevante»

Ok. Já percebi que o percurso histórico dos palestinianos é irrelevante para si. É pena...
E o que tem a dizer dos marranos? Também são irrelevantes as suas raízes?

«Ao contrário de si, os que defendem a expansão, não querem os palestinianos integrados»

Acho que me percebeu mal. Eu sei perfeitamente que esses que hoje defendem a expansão não querem os palestinianos integrados em Israel. Mas isso deve-se a diferenças culturais, em particular de natureza religiosa, que tornam a convivência social com os palestinianos algo insustentável.*

Repare no entanto, que não foi por acaso que falei em mudar a mentalidade dos palestinianos a fim de poder haver uma convergência cultural e reunificação com outros israelitas, atendendo às suas raízes comuns.

Quanto ao Likud e Yisrael Beiteinu, a verdade é que apesar de se pronunciarem a favor da solução de 2 Estados, isso não os tem impedido de continuarem com uma actividade expansionista. Se as coisas se mantiverem a este ritmo nos próximos 8, 16 anos, deixará de fazer qualquer sentido negociar essa solução.



«Eu percebo as suas intenções, mas elas apenas pretendem substituir a religião, a cultura e a identidade dos hebreus por outras doutrinas, como o racionalismo e o humanismo»


Parece que não compreendeu bem a minha visão. Apenas pretendo susbtituir a religião de forma pacífica por uma doctrina racionalista e humanista. Os restante elementos culturais como a língua, a escrita, a música, o cinema, a pintura, a arquitectura, a filosofia, a culinária etc. são precisamente o que mais estimo na identidade israelita.



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*O mesmo dir-lhe-ia se de repente entrassem em Portugal 13 milhões de espanhois, 11 dos quais defensores radicais da doctrina comunista. Seria um caos.

Para haver uma integração bem sucedida tem de haver um processo de convergência cultural. E a eficácia desse processo depende da forma como são educadas as pessoas. Se forem educadas com religiões que em parte incitam à violência contra elementos exteriores, mesmo que se tratem de irmãos, então é natural o que sucesso dessa integração esteja condenado à partida.