sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Por que não deve ser reconhecido o 'Estado da Palestina'?

O Presidente da Autoridade Palestiniana fez um  pedido junto das Nações Unidas para que seja reconhecido o 'Estado da Palestina'. Com o processo de paz bloqueado e com os palestinianos enredados no labirinto que eles próprios criaram, não restava outra coisa a Abbas a não ser uma manobra de marketing. Colocar novamente o assunto dos palestinianos nas agendas internacionais e ganhar vantagem sobre o Hamas é o único efeito prático do pedido entregue na ONU. E é apenas disso que se trata, porque na realidade, quer a Fatah, quer o Hamas estão a anos-luz de quererem efectivamente um país para governar. Essa possibilidade traria consigo muitas responsabilidades, impopularidade e seria um entrave à confortável situação de que gozam as formações políticas palestinianas. Situações de corrupção, dinheiro fácil e ajudas externas seriam mais difíceis. O pedido de reconhecimento na ONU tem por isso uma grande carga de leviandade, algo que as lideranças palestinianas se habituaram a colecionar ao longo das décadas.
Se os membros da ONU tiverem o mesmo grau de responsabilidade que os dirigentes palestinianos, estarão a dar um passo em direcção ao agravamento do conflito e a perpetuar uma situação de guerra. No momento actual de nada serve reconhecer um 'estado palestiniano' porque a sua criação não tem a mínima viabilidade. Por uma série de motivos: a zona onde seria implantado o novo país é uma zona disputada e em conflito;  um acto de criação unilateral - sem tratado de paz prévio - originará de imediato mais atritos, porque as fronteiras entre Israel e a Palestina não estão firmadas; não há garantias nenhumas que o novo estado, uma vez criado, não declare guerra a Israel e muito menos que evite as salvas de mísseis que diariamente martirizam a vida de milhares de israelitas; a criação de um estado palestiniano, com as duas maiores famílias políticas palestinianas a não reconhecerem Israel, é o mesmo que dizer que se manterá toda a belicosidade que vem desde 1948 e que é o problema de fundo do conflito; os palestinianos têm a pretensão de ocupar parte da cidade de Jerusalém, facto inaceitável para Israel. Este aspecto por si só é potenciador de mais conflitos; os Acordos de Oslo passariam a letra morta, porque as lideranças do novo 'Estado da Palestina' se recusam a reconhecer Israel e não podem manter-se acordos com quem não se reconhece; e o novo estado não tem a mínima intenção de respeitar a demografia existente no terreno, tendo a pretensão de recuperar as zonas onde estão construídas as maiores cidades judaicas da Judeia e da Samaria.
Reconhecer um 'estado palestiniano', que não tem ainda condições para existir, não só não ajudará o processo de paz, como tornará mais longínqua uma existência pacifica ao lado de Israel. Tal ideia apenas serve para manter ocupados os agip-prop palestinianistas que têm tentado a todo o custo impor um pensamento único sobre este assunto. Já para não falar da inutilidade que tem para a vida dos próprios palestinianos.

13 comentários:

Anónimo disse...

Caro Levy,

Agradeço o seu post sobre o assunto. Percebi, e em parte compreendo. De qualquer forma, ainda tenho dúvidas se não seria eventualmente bom para Israel, reconhecer-se o estado Palestiniano. Na prática, e como bem refere, tudo seria igual, com o beneficio de Israel dar uma chapada de luva branca ao se demarcar da Fatah e Hamas que não reconhecem Israel. Por outro lado, pelo menos moralmente, desarmaria os palestinianos, que facilmente se destruiriam a si próprios ao tentar governar-se...
Sinceramente não sei. Nem que seja por uma questão de marketing politico e internacional, talvez existam alguns beneficios.
Mais uma vez obrigado.
Rui

Anónimo disse...

Washington has bullied several security council members into withdrawing their support for the Palestinian move, including Portugal, by threatening to withhold support for its stricken economy

http://warincontext.org/2011/09/23/as-netanyahu-blasts-the-un-general-assembly-the-us-blackmails-members-of-the-security-council/

little sound disse...

O reconhecimento do estado da Palestina é apenas uma questão de justiça básica. A existência do estado de Israel está já salvaguardada pela ONU e não está em questão - o estado de israel já existe desde 1948. Parece-me no entanto que é a política de contrução de colonatos de Israel e as invasões sucessivas que são a causa da guerra e não a sua consequência como diz Netanyahu. No fundo apenas se está a dizer "basta" de mortes, e que seja a ONU a decidir. Claro que isso não chega. A ONU já emitiu várias resoluções contra a ocupação israelita e contra o muro construido sobre a Cisjordânia e isso não adiantou nada. Isto torna-se num acto sobretudo simbólico e Netanyahu acabou de perder uma excelente oportunidade de se eternizar e talvez levar um prémio Nobel.

Noiva Judia disse...

Acho que o seu primeiro parágrafo diz tudo. Isto não passa duma manobra de marketing. Mas infelizmente a maior parte do mundo parece disposta a engolir, sob o velho e poeirento argumento de que Israel é o lobo mau e os palestinianos são uns coitadinhos. Há que ter inteligência para ver para além desta cortina de fumo.

Anónimo disse...

O estado israelita foi uma invenção europeia pós segunda guerra mundial como uma espécie de reparação dos danos causados pelo holocausto. Juntou-se a nata ocidental e decidiram que israel teria direito a um determinado pedaço de terra que por sinal era palestiniano. Alguém na altura perguntou aos palestinianos se eles estavam de acordo com o estabelecimento desse novo estado? Se eles estavam de acordo que Jerusalém passasse para as mãos israelitas?

Entretando passaram algumas décadas que não vou comentar a atitude perpetrada por ambos os lados do conflito. Deixo-te apenas uma pergunta: Que fronteiras seriam para ti razoáveis a palestina vir a ocupar enquanto estado independente? Peço-te que desenhes um mapa e me mostres...

É que a sensação que tenho é que israel quer a palestina como um não-estado, lutando por sobreviver, enviando uns ataques risíveis contra os israelitas de modo a legitimar o contra-ataque organizado com novos colonatos que a pouco e pouco vão atrofiando a palestina até à morte. Mas se estou enganado, e se há em israel uma ideia de palestina e de convivência pacífica com palestinianos, então mostra-me um mapa onde seja vísivel a tua ideia de israel e a tua ideia de palestina.

Bastian disse...

O anónimo que respondeu hoje às 11:29 a saber tanto quanto parece querer dar a entender certamente sabe que no século VI o território actualmente ocupado por Israel era já então ocupado por judeus e constituía o então reino da Judeia, que devido a conflitos externos resultou na sua invasão e perda do território para os árabes. Desde então até 1948, depois da segunda grande guerra, os judeus são os únicos que têm o direito de reclamar aquele território como deles, já que são o único povo ancestral a quem aquele espaço pertence.

A Palestina não tem qualquer autoridade moral para reclamar ser "Estado" enquanto não se dissociar do Hamas e outras organizações terroristas e todos aqueles que perpetraram ou colaboraram nos 170 ataques terroristas que desde 1989 vitimizaram 804 pessoas (palestinianos inocentes inclusive).

Ainda que Israel fosse uma força invasora, isso em nada daria razão para o Hamas recrutar e doutrinar crianças, usar civis como escudos humanos e outro tipo de acções que indirectamente são patrocinadas pelo governo palestiniano ao associar-se a este tipo de organizações que se dedicam ao terror.

NanBanJin disse...

Caro Levy:

A propósito, este grande artigo que aqui deixo de referência:

http://www.libertaddigital.com/opinion/jeff-jacoby/un-estado-palestino-no-cuente-con-ello-61132/

(Provavelmente já o leste, deixo-o aqui, de qualquer modo, como 'apêndice' a este teu artigo, para os interessados.)

Forte Abraço,

Luís Afonso, NBJ

Anónimo disse...

Anónimo das 11:29
"...como uma espécie de reparação dos danos causados pelo holocausto..." foi um dos princípios com que foi fundada a ONU.
Na sua concepção, que entende por Palestinianos? O território da Jordânia (outro Pais nascido depois da guerra..) também não era a "Palestina"?
Entre outras considerações parece-me que está a pensar ao contrário:não é Israel que quer a Palestina como um não-estado, algo que foi aceite por Israel desde a sua fundação. São aos restantes estados árabes e a facções palestinianas que lhes tem convido este arrastar de qualquer decisão.
JS

Joaquim Simões disse...

HISTÓRIA DO POVO JUDEU : DA DESTRUIÇÃO DO TEMPLO AO NOVO ESTADO DE ISRAEL, de Werner Keller, Galeria Panorama, Lisboa, 1966. Disponível em bibliotecas universitárias bem como na Biblioteca Nacional.
A leitura desta obra é extremamente útil e enormemente esclarecedora sobre o que diz respeito ao que está em jogo na existência do Estado de Israel.
Recomendo-a.

David Levy disse...

@ Afonso,

Obrigado :)

Abraço

o castendo disse...

Boa tarde David Levy,
A opinião de outro Levy:
jangada-de-pedra.blogspot.com/2011/09/manifestacao-em-ramallah-favor-do.htm
e
jangada-de-pedra.blogspot.com/2011/09/candidatura-da-palestina-estado-membro.html

Anónimo disse...

@Bastian
Respondo-te com uma pergunta...
Os italianos têm direito de reclamar a Europa como deles, porque ancestralmente todo aquele território pertencia-lhes enquanto Civilização Romana?

@JS
"não é Israel que quer a Palestina como um não-estado, algo que foi aceite por Israel desde a sua fundação"
Isto significa que defendes o regresso das fronteiras à origem do estado israelita? mapa



Atenção eu não advogo o regresso às fronteiras propostas pela ONU em 1947, a minha resposta ao JS foi apenas uma provocação. O tempo passou e o passado não dá direitos eternos nem a um lado nem ao outro. Apenas pus uma questão e situei-a no presente dia. Refaço a pergunta: "Que fronteiras seriam para ti razoáveis a palestina vir a ocupar enquanto estado independente? Peço-te que desenhes um mapa e me mostres..."

O tal anónimo das 11:29 ;)

Anónimo disse...

Anónimo:
Não.Obviamente que não porque tudo se alterou. Por exemplo, até 1967 a Faixa de Gaza era do egipto e agora pertence a uma facção palestiniana.
JS