segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A matilha


Repare-se na subtileza destas duas capas do Jornal de Notícias. Numa sugere-se que o Estado não consegue controlar as despesistas pensões dos professores, e na outra que estes ganharam um balúrdio em horas extraordinárias. No primeiro caso, parece que há umas irregularidades detectadas na análise de 54 processos de reforma, no segundo o Estado alegadamente pagou 11 milhões de euros a mais em horas extraordinárias a um universo de 160 mil professores. Mas em ambas as situações a notícia é muito mais sensacional que isso, fazendo passar o ónus da despesa e da responsabilidade para a classe docente. As letras garrafais dizem claramente que os professores ganharam milhões. Ora a frase ganhar milhões está muito mal vista em Portugal e costuma incitar  ódios e invejas.  Por isso quando se quer atiçar a populaça contra os docentes a técnica é sempre a mesma: plantam-se manchetes em alguns jornais, relatando que ganham isto ou aquilo.  Como são muitos, conseguem-se sempre parangonas espectaculares. Se as intenções não fossem essas, outras classes também seriam notícia, mas nunca de primeira página.

8 comentários:

Cirrus disse...

Não chega a 70 euros...

David Levy disse...

@ Cirrus

Pois, mas não é só isso que está em causa. Independentemente da questão técnica de se saber como é que devem ser pagas as horas, há a questão de saber porque é que uma coisa destas ocupa uma primeira página de um jornal. Julgo que a resposta está caixa de comentários da referida notícia. É de fugir: a populaça anti-professores saliva...

3virgula14 disse...

E assim se vendem jornais.
Os professores compram para ler o "ataque" e os não professores compram para ler a “gatunice”.
Sugestão aos professores e aos não professores (e não anti professores): não comprem jornais com notícias destas! E assim manchetes destas deixam de compensar ;)

Baudolino disse...

Há quem me tenha afirmado que tinha visto no Expresso que eu ganhava, como docente no ensino superior, 5000 euros. Respondi que nem metade, longe disso, como Professor Auxiliar: é público.
Respondu-me essa pessoa 'Pois, pois, os jornais é que manipulam a coisa...' e sorriu ironicamente. Para além do 'crime' de ser um parasita inútil, ainda tenho o ónus de provar que não minto e que não estou a ocultar o montante vergonhoso que estou a auferir...

E uma nota sobre o post mais recente (a foto): não sou nem pró-sionista nem pró-palestiniano. Aliás, entendo que, por razões pessoais se possa estar mais envolvido com.. ou com... As militâncias exacerbadas, as 'atrocidades' sempre me fizeram confusão. A neutralidade não será objectivamente uma possibilidade mas os consensos seriam possíveis se, de um lado e de outro, não houvesse quem insiste em inflamar. A publicação desta foto, caro D Levy, não é nem teria de ser um acto de contrição. É uma prova de que tem os olhos abertos e que vive as suas causas de modo construtivo. aliás, tenho este blog nos meus favoritos, acompanho, discordo em muito, concordo com muito, raramente comento mas gosto de ter contacto, por esta via, com muitas perspectivas que são o lado oculto da realidade mainstream mediatizada.
(Desculpe a extensão do comentário)

David Levy disse...

@ 3,14

À conta dessa medida já poupei centenas de euros. O jornal expresso foi um dos cortados: desde que começaram com manchetes destas, nunca mais entrou aqui em casa. Já lá vão 7 anos.

David Levy disse...

@ Baudolino

Obrigado pelo seu comentário e pelas visitas.

A história do expresso que nos conta é o resultado do que fizeram aos professores. Também já dei comigo a justificar-me perante terceiros sobre aspectos da nossa profissão. O caldo anti-professores está criado.

Luis Moreira disse...

meu caro, não será porque a educação não dá provas? não será porque num país onde há tanta gente sem emprego, só se ouve quem tem privilégios que a maioria da população não tem? Já experimentaram lutar por uma escola autónoma, assente no mérito,e nos resultados? acha que ganha adeptos andando na blogoesfera a chamar a atenção para os títulos dos jornais? Ou os jornais deviam esconder as notícias referentes aos professores? Leia no estrolabio.blogspot.com o Prof Boaventura, acerca de quem não tem voz.

David Levy disse...

Caro Luís Moreira,

- Não é por haver muitos sem emprego que os que estão empregados têm de engolir todos os disparates e mais alguns;

- Já se percebeu que o senhor é dos que acham que ter emprego é um privilégio, e que todos os que não são miseráveis são uns privilegiados;

- A educação não dá provas? Então mas não estava tudo a correr às mil maravilhas? Computadores novos, magalhães a pontapés, avaliação dos pérfidos professores; congelamentos sucessivos de carreiras e ordenados. Julgava que todas essas medidas tinham colocado Portugal no 1º Mundo. Espanta-me que ao fim de 15 anos de Governos do PS me diga que a educação não dá provas. E como é que ao fim de 15 anos de socialismo ainda há privilegiados em Portugal?

- Não ando aqui a angariar adeptos. o senhor é que parece que anda porque veio aqui publicitar o seu blogue;

- Os jornais não deviam esconder as notícias dos professores mas deviam ser mais isentos. Coisa que o JN não é. Não só porque apenas noticia os professores, deixando outras classes de fora, como as notícias em causa não são imputáveis aos professores, mas sim às tutelas: Ministério da Educação (um monstro socialista) e Caixa Geral de Aposentações;

- A escola autónoma, exigente e assente na disciplina e no mérito tem a minha total concordância. Mas essa não é a Escola Socialista que temos;

- O prof Boaventura é dos que vive à conta do sociologuês.