sexta-feira, 5 de março de 2010

O vira-casacas

Foi preciso um aluno morrer, para o inenarrável Albino Almeida vir a terreno apresentar propostas contra a indisciplina em meio escolar. Este senhor, no seu obscuro cargo de Presidente Eterno da CONFAP,  ignorou o problema durante anos. Em vez disso, especializou-se noutros assuntos:  criticar os professores e defender até à exaustão  o modelo da Escola Depósito de Alunos.
Como apoiante-mor do trio Lurdes Rodrigues/Valter Lemos/Jorge Pedreira,  nunca se lhe ouviu um reparo às directrizes laxistas, indisciplinadoras e desresponsabilizantes que Governo introduziu no sistema educativo ao longo de quase meia década. Até mesmo no estapafúrdio Estatuto do Aluno, Albino Almeida limitou-se a criticar aspectos pontuais, concordando com o essencial do documento.
Agora que o vento mudou, o presidente da CONFAP apressou-se a virar a casaca, quer ser o primeiro a apresentar medidas disciplinadoras, quando passou anos a compactuar com a rebaldaria e com o "eduquês".

6 comentários:

RioDoiro disse...

"contra a indisciplina em meio escolar. "

Pareceu-me que o gajo foi ainda pior.

Pelo que ouvi, os alunos continuam a gozar de inocência intrínseca e os pais são agora os culpados (deixa de ser a sociedade como um todo). Os mesmos pais que as doutas luminárias do ministério têm tentado substituir a todo o custo desautorizando-os a torto e direito com o beneplácito do Almeida.

Levy disse...

@ RioDoiro

"Pareceu-me que o gajo foi ainda pior."

O gajo é pior. E não dá ponto sem nó. Duvido até que tenha filhos na escola...

Tomé disse...

E o que tem o 'eduquês' a ver com isto? Aliás, porque se fala em eduquês? E o 'disciplinês'? O que tem a reflexão séria sobre educação a ver com muitos parvos armados em pedagogos. Da mesma forma que se pode partir do princípio de que todas as pessoas que sabem matemática e falam sapiencialmente sobre tudo são os do matematiquês? A verdade é que há quem faça investigação e reflicta sobre educação (sempre houve, desde tempos imemoriais e quem o faça seriamente. O Nuno Cratês é bem mais perigoso na sua demagogia. Sejamos justos, o tipo da confederação de pais não pactuou com coisa nenhuma: é um idiota que quis promover-se, nada mais. Nunca me pareceu que estivesse sustentado em teorias. Nem vejo que tenham sido as teorias a estragar a escola. A incompetência e o propagar destas demagogias (o eduquês e o seu fiel inimigo, o anti-eduquês) são inimigos da discussão e do fazer luz sobre as coisas.
Concordo com muita coisa do que se escreve aqui, excepto com esta sanha. Talvez porque me sinta atingido, dirá... Claro, porque estou dentro desta área, faço o que faço seriamente e acho o Nuno Crato um idiota com boa imprensa. Vi, há tempos uma troca de mails entre ele e uma colega que trabalha nos EUA, na qual fala de coisas que não conhece e inventa como ninguém... a velha questão do isco e do peixe...
Enfim, todo o fundamentalismo é mau.
Bom trabalho neste blogue, caro Levy e desculpe se pareço agressivo. Estou um pouco cansado de ver falsos ídolos serem adorados e, à conta de gente idiota que obscurece discursos (na área da educação e em todas) para parecerem intelectualmente válidos. O eduquês existe, como é óbvio, tanto quanto todos os outros -ês. Concordará comigo, espero eu.

Levy disse...

Caro Tomé,

Julgo que toda a gente sabe distinguir o "eduquês" da reflexão séria sobre educação. Eduquês não é uma especialização em educação, muito pelo contrário. É um discurso palavroso, redondo e pouco preciso, que se baseia na centralização de todo o processo educativo no aluno, e é frouxo na disciplina e na responsabilização. Se os propósitos não são esses, os efeitos são. Na prática é quase uma ideologia. Existe e eu discordo dela.
Não julgo o discurso do Nuno Crato demagogo, ao contrário do de Albino que apoiou toda a política demagógica da MLR. E apoiou-a por um motivo muito simples: porque MLR livrou muitos pais do seu maior pesadelo: cuidar dos filhos. Ao transformar a escola num depósito de alunos. Nesse ponto Albino deu a sua caução a um dos propósitos do eduques: a escola não serve só para ensinar, serve também para tratar das crianças, em vez dos pais.

Não pretendo atingir ninguém, apenas me limito a dizer o que penso.

Tomé disse...

Claro, estamos a falar e talvez tenha sido demasiado impetuoso no juízo. Reafirmo o que penso sobre o domagogês. E concordo com o desastre que foi MLR e a 'escola depósito'. Tenho 3 filhos e recuso-me a aceitar o depósito sem qualidade. E para lutar contra isso, tenho usado muitos argumentos de natureza pedagógica. Infelizmente, a instituições convivem mal com a boa mudança e acochegam-se bem na mudança desastrosa. E aí entra tb em consideração o medozinho que se sente na escola relativamente aos 'pequenos poderosos', às autoridades de campanário, casos de presidentes de agrupamentos, sobretudo quando escudados em directores regionais caciques...
No plano pedagógico, fala-se muito de 'accountability' mas esquecem-se de que esta não existe se não houver 'empowerment', a verdadeira autoridade esclarecida. A escola precisa de ser Escola e não circo, nem pequeno espaço militarizado. Tem de ser lugar de prazer responsável, de gostar de aprender como equivalente de aprender com rigor. Não tem de ser bisonho para ser sério. É difícil? Muito. Utópico? Talvez. É eduquês? Seja.
Que lhe parece?

Levy disse...

@ Tomé

Parece-me bem, e não é de forma nenhuma eduquês.

MLR conseguiu uma coisa extraordinária: ao atacar uma classe inteira passou um seguro de vida aos professores menos competentes. Tomar os professores todos por igual, teve exactamente esse efeito: são todos iguais. Logo não há distinção por mérito.