quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Para que quer Netanyahu este ministro?

Num qualquer país, o ministro dos Negócios Estrangeiros tem a seu cargo a elaboração, coordenação e execução da política externa. É dos livros. Israel não fugia à regra até ter aos comandos das suas relações externas uma pessoa com o nome de Avigdor Lieberman. 
O polémico ministro dos Estrangeiros israelita foi desde o início uma má escolha. Os problemas surgiram logo uma semana depois da tomada de posse, com uma ida à polícia para depor. Motivo: suspeitas de corrupção. Lieberman tinha já na altura a reputação de alguém a quem ninguém se atrevia a comprar um carro em segunda mão. Depois, e já com a mandato em velocidade de cruzeiro, começou a verificar-se que o seu desempenho era no mínimo um tanto ou quanto apagado. Raramente se ouvia falar no ministro dos negócios Estrangeiros de Israel, e quando se ouvia ficava-se sem se perceber qual era a concepção que tinha para o mais importante dos assuntos: a condução do processo de paz. As contradições avolumavam-se: ora se manifestava a favor de um Estado Palestiniano e se dispunha a abandonar a sua própria casa numa cidade da Judeia, ora declarava que os colonatos não eram obstáculos para a paz, congelando-os de seguida, mas prometendo simultaneamente que regressariam em força e em todos os lugares. Incoerências que não causaram grande mossa enquanto a Autoridade Palestiniana se entreteve a chantagear o Governo de Netanyahu, recusando-se a iniciar negociações.
Ultrapassado o impasse, e relançado o processo de paz, seria de esperar uma clarificação e um maior protagonismo por parte do ministro dos Negócios Estrangeiros. Mas não, Netanyahu  não se atreveu a ter Lieberman  por perto quando se tratava dos assuntos da paz, centrando exclusivamente em si a tarefa.
Felizmente, e apesar da desorientação e da falta de estratégia, o primeiro-ministro parece ter percebido a má escolha que fez e que nenhum país pode negociar a paz liderado por um ministro que declara que o acordo pode levar décadas. Mas perceber não chega, Netanyahu também deve entender que ninguém levará a sério as suas intenções pacifistas, se continuar a ter nos Negócios Estrangeiros um homem que cada vez que fala envergonha o Governo.
Embora algumas  das posições que defende sejam acertadas - caso do casamento civil, da troca de localidades entre Israel e o futuro Estado da Palestina, da ideia de dois estados etnicamente homogéneos - Lieberman é mais do que um erro de casting, é a pessoa errada no local errado. Pior era impossível, pois o ministro não só  não contribui  positivamente para o processo de paz, como ainda o prejudica constantemente, desferindo com isso sérios golpes na imagem externa de Israel. Só resta uma solução a Netanyahu: demitir Lieberman. Antes que lhe cause mais problemas.

2 comentários:

Anónimo disse...

Não posso deixar de reparar que é a segunda critica que o David faz a Israel no espaço de 2 dias. Está a mudar de campo é?

Um leitor despontado.

David Levy disse...

Caro leitor desapontado,

Não critiquei Israel, critiquei o Governo de Israel, o que é diferente. A critica e o escrutínio aos governos é uma actividade legitima e há muito que está enraizada na democracia israelita. As criticas que eu fiz, até devem ter sido simpáticas quando comparadas com outras que se fazem por lá.
Por isso não percebo porque é que o facto de eu criticar uma orientação do governo e um ministro, faz com que eu mude de campo.
É um erro pensar que quem critica o governo israelita é porque está contra Israel. Casos há em que isso se verifica, mas não é o meu caso deve calcular.
A discussão e a democracia fizeram de Israel o que ele é hoje, pelo que não percebo o fundamento desse seu comentário.
Além disso, e caso não tenha reparado este blogue não existe para agradar a ninguém em particular e apenas me limito a emitir as minhas opiniões. Se elas não estão de acordo com as suas, lamento, mas fique sabendo que não gosta mais de Israel que eu.

Lamento que esteja desapontado.